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Especialistas debatem a presença da cultura negra na arte e na educação brasileiras

Essa e outras discussões integraram a II Semana Negra do APUBH. Evento também abordou a realidade de estudantes negros estrangeiros na UFMG

II Semana Negra do APUBH: Mesa “Poéticas Negras como espaços de movências e reflexões”⠀

Na abertura do terceiro dia da II Semana Negra do APUBH, quinta-feira (05/11), a professora Analise da Silva, 1ª vice-presidenta do APUBH e coordenadora do Fórum Estadual Permanente de Educação de Minas Gerais (FEPEMG), observou que os dois primeiros dias de atividades tiveram grande adesão de membros da comunidade universitária da UFMG e de outras instituições de Ensino Superior, bem como de estudantes e professores da Educação Básica.  Na opinião dela, isso demonstra como o tema da educação para as questões étnico-raciais vem ganhando espaço.

A discussão sobre essas questões ganhou força na mesa “Poéticas Negras como espaços de movências e reflexões”, que debateu a presença negra na arte e na cultura brasileiras. A discussão se expandiu ainda para o modo essas temáticas vêm sendo trabalhadas junto aos estudantes, nos ensinos básico e superior. Assista ao vídeo na íntegra:https://youtu.be/3FLqysvHZHM

A professora Adélia Aparecida da Silva Carvalho, daUniversidade Federal do Amapá (UNIFAP), abordou o tema “O teatro negro na formação de licenciandos no curso de Teatro do Amapá”.Em sua fala, ela reforçou que “discutir o teatro negro junto aos cursos de graduação em Teatro e, em específico os cursos de licenciatura, na minha opinião, é mais do que uma questão obrigatória. É um ato político, descolonizador e  precursor do entendimento da potencialidade do teatro brasileiro, a partir de vários movimentos”. É fundamental, ainda segundo a docente, repensar os currículos deste curso no país, composto predominantemente por influências europeias, abrindo para as outras influências étnico-raciais que compõem o nosso povo.

“Um grito pela presença: a escrita de insubmissa como ponte para a intimidade em tempos de isolamento” foi o tema da fala da atriz, cantora e professora da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Juliana Alves Mota Drummond. Em sua apresentação, ela mesclou momentos de reflexão, leituras dramáticas e cantos. A artista ressaltou “a riqueza de nós conseguirmos enxergar a diversidade nos seres, como cada um propõe coisas e diferentes, como cada um está tentando existir e resistir de uma forma muito delicada e particular, forte e potente”.Nesse sentido, a professora enalteceu a possibilidade que tem aqueles que trabalham com a arte de, como ofício,dar vazão para a subjetividade, bem como de utilizar esta para reler e ressignificar o mundo.

Prosseguindo com a conversa, o professor Marcos Antônio Alexandre, da Faculdade de Letras (FALE/UFMG), abordou o tema “Contos de Mitologia e Literatura Afro-brasileira em Foco: encontros”. Em sua fala, ele reforçou a existência das Leis Federais 11645/98 e 10639/03, que objetivam a difusão e preservação das tradições culturais das populações negras e indígenas. Apesar disso, como lembra o próprio docente, “nem sempre, no ensino formal brasileiro, as tradições culturais relacionadas aos povos negros aparecem nas escolas”.

Atendendo a essa carência, que ele vivenciou em suas práticas pedagógicas como professor e pesquisador, surgiram os projetos Contos de Mitologia e Literatura Afro-Brasileira em Foco, ambos vinculados à Pró-reitoria de Extensão da (PROEX/UFMG).As iniciativas têm função de trabalhar a temática nas escolas da rede pública de Belo Horizonte e região metropolitana. “A gente tem como premissa o fato de que a mitologia pode ser acionada e atingida por todas as faixas etárias, porque o seu conhecimento permite uma reflexão abrangente que provoca questionamentos que atravessam questões relacionadas às áreas de literatura, história, filosofia, ética, estética, educação e, obviamente, as artes em geral”, explicou. “A gente buscar sustentar pedagogicamente que essas discussões são estratégicas dinâmicas para ser incluídas no sistema escolar de ensino, em todos os níveis”, completou.

A vivência de estrangeiros negros nas UFMG

II Semana Negra do APUBH: Mesa “Estudantes Estrangeiros na UFMG”⠀

No mesmo dia, a II Semana Negra também passou a palavra para Gisseila Andrea Ferreira Garcia, doutoranda em Saúde Pública, e Mardochée Ogécime, doutorando em Ciência da Informação. Os pós-graduandos foram os convidados da mesa “Estudantes Estrangeiros na UFMG”.A mediação ficou por conta dos professores Eliezer Costa, diretor de Finanças do APUBH, e Rubens Alves da Silva, da Escola de Ciência da Informação (ECI/UFMG). Assista ao vídeo na íntegra: https://youtu.be/LQNWUKqHuQE

Desde 2018, Gisseila Andrea Ferreira Garcia realiza uma pós-graduação na Faculdade de Medicina da UFMG. Oriunda de Cabo Verde, na África, a médica relembrou a dificuldade de adaptação quando entrou para a universidade. “Pelas perguntas, você sente que não deveria estar aí, porque você ‘tomou vaga’ de algum brasileiro”, relembra. Além da solidão de viver em um país estranho, ela relata que sofreu com o preconceito e ignorância das pessoas sobre o continente africano. “Estando em um ambiente acadêmico, como o de doutorado, você espera um conhecimento geral mais abrangente, que eu, particularmente, não identifiquei muito”, pontuou.

Tendo passado a maior parte de sua vida em país de população majoritariamente negra, ela observou que não compreendia a dinâmica étnico-racial do país, bem como esta se manifestava em forma do racismo estrutural. Em sua pesquisa, a pós-graduanda estuda o modo como questões raciais e de gênero interferem no campo da saúde. Assim, ainda segundo ela, esse estudo e coleta de dados pode contribuir para a compreensão implementação de ações sanitárias adequadas, trazendo benefícios os dois países.

Prosseguindo com a mesa, o pós-graduando Mardochée Ogécime observou que, apesar do esforço integração entre os países, ainda restam barreiras a serem enfrentadas. No contexto de mobilidade internacional no âmbito acadêmico, ele apontou que os países periféricos ainda sofrem com a influência dos grandes centros econômicos.  “O que acontece, muitas vezes, é que a gente se forma e não tem o acompanhamento de nossos países de origem para receber certas competências”, observou.

 

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