“Ser homem” não pode significar violência contra as mulheres!
O Dia Internacional da Mulher (8M) existe como uma consequência da luta das mulheres por meio de manifestações, greves e resistência. A data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas na década de 1970 como um marco de luta contra as diversas opressões, discriminações de gênero e violências cotidianas. Há referências à origem do Dia Internacional da Mulher que remetem a luta de mulheres nova iorquinas ao denunciaram a precariedade de suas condições de trabalho. A data de 08 de março, contudo, coincide com outro evento histórico cujo contexto é a Revolução Russa de 1917. Naquela época e naquele país, uma greve das operárias têxteis ocorreu no dia 23 de fevereiro do calendário juliano e essa data corresponde ao dia 08 de março do calendário ocidental.
A greve iniciada no dia 08 de março de 1917 pelas mulheres trabalhadoras do setor de tecelagem de Petrogrado é considerada o estopim da Revolução Russa de 1917. Essas mulheres paralisaram suas atividades e foram às ruas para reivindicar: 1- o fim da fome e da escassez de alimentos, agravada pela Primeira Guerra Mundial, bem como da participação da Rússia nessa guerra; 2- melhores condições de trabalho e direitos trabalhistas; 3- o fim do regime czarista, que oprimia a população e mantinha o país na miséria. O protesto, que começou com as tecelãs ganhou a adesão de outros trabalhadores e cresceu até se tornar uma greve de massas que paralisou a cidade. Em poucos dias, o movimento se alastrou para outras cidades da Rússia e forçou a queda do Czar Nicolau II. A Revolução Russa que ocorreu em seguida foi marcada por uma grande presença feminina nos espaços de poder e por uma série de avanços nos direitos das mulheres. Esse foi, sem dúvida, um dos legados mais importantes e transformadores desse processo revolucionário.
Desde o dia 16 de dezembro de 1977, quando a ONU adotou a Resolução 32/142 e proclamou o 8M como o Dia Internacional dos Direitos da Mulher, a data passou a ser um momento de amplificação de denúncias contra as desigualdades estruturais que marcam, principalmente, a sociedade capitalista, tais como a desigualdade salarial e a sobrecarga de trabalho. Junto com o feminicídio e a violência doméstica, esses fenômenos também são expressões de uma construção social da masculinidade, que molda como os homens aprendem, internalizam e reproduzem os comportamentos, valores, expectativas e papéis que a sociedade estabelece como sendo “próprios dos homens”. As relações de gênero que marcam a sociedade capitalista estão baseadas no patriarcado, que é um sistema de dominação e hierarquia baseado no gênero, bem como no machismo, que é a ideologia que justifica o patriarcado. Por isso, podemos dizer que o machismo e o patriarcado não são resquícios do passado ou fenômenos culturais isolados dentro do capitalismo, tendo em vista que são estruturalmente funcionais à lógica de exploração da classe trabalhadora.
A desigualdade de gênero está enraizada nas instituições, nas práticas sociais e nas normas culturais das sociedades capitalistas. Diferente de atitudes individuais isoladas, essa desigualdade se manifesta de maneira sistemática e influencia leis, relações de trabalho, divisão de tarefas domésticas e representatividade política. Com o advento das redes sociais, a perpetuação da cultura misógina e da violência contra as mulheres ganhou um novo canal. Por meio desse canal, nos últimos anos, ocorreu o crescimento da propagação de extremismos, como é o caso do red pill (pílula vermelha), que é uma subcultura da masculinidade tóxica manifestada nas redes sociais. O red pill é uma manifestação de homens afirmam ter “despertado” para uma suposta verdade sobre as relações de gênero, na qual as mulheres são apresentadas como “privilegiadas” em detrimento dos homens. O feminismo é visto como uma ferramenta de opressão da masculinidade.
Outros exemplos de manifestação da masculinidade tóxica nas redes são o Manosphere, que também promove visões hostis às mulheres, e a Comunidade MGTOW (Men Going Their Own Way) dentro da qual seus integrantes dizem que os homens devem evitar relacionamentos de longo prazo com mulheres, como o casamento ou a coabitação, sendo essa atitude uma forma de autopreservação e soberania pessoal. Já os Incels apresentam forte ressentimento contra mulheres e até mesmo com homens considerados mais atraentes, com casos documentados de glorificação de violência. Todos esses exemplos de movimentos de supremacismo masculino e antifeminismo radical defendem, explicitamente, a superioridade masculina e consideram o feminismo como uma ameaça. Os discursos de ódio desses movimentos extremistas reverberam o machismo estrutural estabelecido na sociedade e dão origem a assédios e violências que podem, inclusive, culminar em feminicídios.
Sendo também expressões das relações econômicas e materiais na sociedade, as identidades de gênero são pertencimentos subjetivos enraizados na cultura e nos costumes. Desde a infância, homens e mulheres são confrontados e confrontadas com expectativas diferentes de como devem agir, sentir e se posicionar no mundo. Tornar-se pertencente a um gênero pode ser compreendido como um processo contínuo de construção e internalização de referências sociais sobre o que significa ser homem ou mulher. Assim, afirmar-se como homem envolve aproximar-se ou afastar-se desses modelos considerados socialmente adequados ao masculino. Em uma sociedade desigual como a nossa, a masculinidade tóxica se apresenta como um percurso frequente do desenvolvimento da identidade de gênero masculina e produz uma representação do que é “ser homem” que não suporta a ideia de fragilidade masculina e que precisa se opor à possibilidade de mulheres ocuparem espaços de poder, algo que é interpretado como ameaça e escancaramento da própria vulnerabilidade.
A conscientização da sociedade acerca dos efeitos sociais e psicológicos da masculinidade tóxica e da misoginia a ela associada torna essencial iniciativas educativas que promovam uma compreensão mais aprofundada desses problemas. A participação dos homens que compreendem as razões estruturais dessas expressões e de seus efeitos sociais deletérios é fundamental. No texto “O machismo é um problema educacional”, que foi publicado na Coluna “Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Artes em Pauta” do APUBH, no site nacional do Brasil de Fato, o professor Elvis Rezende Messias exemplifica como os homens podem contribuir para iniciativas educativas que tem como objetivo a problematização e a superação do machismo e de outras formas de violência contra as mulheres. A professora Marlise Matos também abordou o tema na mesma coluna com os textos “A violência contra as mulheres como uma pandemia social”, “Violência pública contra as mulheres completa o circuito do ‘mandato de violação’”, “A violência contra as mulheres em dados: os desafios das raízes privadas do ódio misógino” e “Desafios ao combate de todas as formas de violência contra as mulheres”.
É preciso lembrar que há modelos de masculinidade não relacionados à violência contra as mulheres. É plenamente possível construir formas de existências e afetos diversos. O combate à violência precisa passar por esse reconhecimento da pluralidade do “ser homem”. Diante desse cenário adverso que ainda enfrentamos precisamos continuar lutando e afirmando: a masculinidade tóxica destrói a existência de mulheres cotidianamente! O machismo mata todos os dias! Basta!
