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Servidora(e)s da UFMG debatem as políticas institucionais LGBTQIA+ na universidade

Mesa-redonda sobre o tema integrou a 1ª Semana do Orgulho LGBTQIA+ da UFMG. Evento conta com o apoio do APUBHUFMG+, do SINDIFES-MG e do DCE-UFMG.

O APUBHUFMG+ compôs a mesa-redonda “Servidores e políticas institucionais LGBTQIA+”, dentro da programação da 1ª Semana do Orgulho LGBTQIA+ da UFMG | Foto: Acervo do APUBHUFMG+.

Em 28 de junho, o Brasil e o mundo celebram o Dia do Orgulho LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Transgêneros, Travestis, Queers, Intersexuais, Assexuais, Pansexuais e demais orientações sexuais e identidades de gênero). 

O reconhecimento da data contribui para dar visibilidade às discussões sobre a diversidade sexual e de gênero, em especial os desafios e as conquistas desse segmento marginalizado da sociedade. Dessa maneira, anualmente, o mês de junho é marcado pela realização de atividades culturais, debates e protestos referentes a essas bandeiras de luta. 

A comunidade acadêmica da UFMG abraça essa causa. Assim, ao longo do ano, a universidade abriga trabalhos acadêmicos, atividades culturais e manifestações com essa temática. Já no Mês do Orgulho LGBTQIAP+, a mobilização se intensifica, com docentes, TAEs e estudantes protagonizando uma série de ações.

Agora, em 2026, conquistamos um avanço: a realização da 1ª Semana do Orgulho LGBTQIA+ da UFMG. Embora a comunidade já se mobilizasse em torno do tema, a realização desse evento, por parte da universidade, representa a institucionalização dessa pauta. Com isso, o Mês do Orgulho LGBTQIAP+ passa a integrar o calendário oficial da universidade. 

O evento foi construído coletivamente, com o apoio de entidades representativas dos três setores –  APUBHUFMG+, SINDIFES-MG e DCE-UFMG. Assim, entre os dias 23 e 26 de junho, a programação contou com mesas-redondas, conferências e atividades culturais.

Compromisso Institucional

A abertura oficial da programação ocorreu na última segunda-feira (23/06), no Auditório da Reitoria. Integrando o evento de maneira virtual, a professora Alamanda Kfoury Pereira, vice-reitora da UFMG, reafirmou o compromisso da universidade, enquanto instituição pública, democrática e socialmente engajada, em promover a diversidade, inclusão, direitos humanos e dignidade.

A vice-reitora destacou, nesse sentido, as políticas e ações concretas da universidade, como ações afirmativas, adoção do nome social e iniciativas contra racismo, assédio e discriminação, além de outras iniciativas para a garantia de acesso e permanência na Universidade. Ela enfatizou que a construção de uma sociedade inclusiva é um desafio contínuo, que exige diálogo e compromisso.

As professoras Alamanda Kfoury Pereira, vice-reitora da UFMG, Joana Ziller, presidente da Comissão de Diversidade de Gênero e Sexualidade da UFMG, e Carla Spagnol, Pró-Reitora de Recursos Humanos; Leônor Gonçalves, pró-reitora adjunta de Recursos Humanos | Foto: Acervo do APUBHUFMG+.

Após a abertura oficial, tivemos a mesa-redonda “Servidores e políticas institucionais LGBTQIA+”, composta por representantes institucionais da UFMG e do(a)s servidore(a)s docentes e TAEs. O APUBHUFMG+ integrou o debate, na figura de Jezulino Lúcio Mendes Braga, professor da Escola de Ciência da Informação (ECI) e 2º vice-presidente eleito para a gestão 2026-2028 do sindicato.

A mesa-redonda foi composta, ainda, por: Joana Ziller, presidente da Comissão de Diversidade de Gênero e Sexualidade da UFMG; Carla Spagnol, Pró-Reitora de Recursos Humanos; Leônor Gonçalves, pró-reitora adjunta de Recursos Humanos; Cristina Del Papa, coordenadora geral do SINDIFES-MG; e Samuel Moreira Marques, técnico-administrativo do Centro Pedagógico.

Interseccionalidade e desafios docentes

Em sua fala, o professor Jezulino Braga destacou o engajamento do APUBHUFMG+ em pautas LGBTQIA+. Ele conectou a luta pela redução da jornada de trabalho (pauta defendida pelo sindicato) às pautas LGBTQIA+. Ao citar o trabalho do vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ) e da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), o professor demonstrou como pautas identitárias e de justiça social não são opostas, mas interligadas.

O representante do APUBHUFMG+ compartilhou sua experiência como professor negro e LGBTQIA+, filho de operário, o primeiro de sua família a ingressar na universidade. A partir desse relato, ele usou a sua presença na UFMG como exemplo do resultado de políticas educacionais e lutas coletivas para ampliar a diversidade nas universidades. 

Nesse sentido, o docente questionou a narrativa de “filhos da casa” na universidade, que desconsidera a crescente diversidade de corpos e experiências. Por isso mesmo, ele argumentou que políticas LGBTQIA+, antirracistas e de valorização do trabalho são parte do mesmo horizonte de ampliação democrática.

A/os servidora/es Jezulino Lúcio Mendes Braga, professor da Escola de Ciência da Informação (ECI) e 2º vice-presidente eleito para a gestão 2026-2028 do APUBHUFMG+, Cristina Del Papa, coordenadora geral do SINDIFES-MG, e Samuel Moreira Marques, técnico-administrativo do Centro Pedagógico | Foto: Acervo do APUBHUFMG+.

O professor Jezulino ressaltou a necessidade de escutar as diversas experiências docentes, com o intuito de que as regulamentações levem em consideração as realidades específicas. Essas situações afetam, ainda segundo ele, o acesso a oportunidades de ensino, pesquisa e extensão para docentes de diferentes origens.

Por fim, o professor Jezulino convidou a categoria docente a se filiar ao APUBHUFMG+. Nesse sentido, o docente ressaltou o papel do sindicato de contribuir para o fortalecimento da mobilização em torno das pautas LGBTQIA+ na universidade.

Avanços na luta contra a LGBTfobia na UFMG

Iniciando a sua exposição, a professora Joana Ziller compartilhou sua experiência pessoal, que começou como uma estudante lésbica “no armário” na década de 1990 e passou para um papel institucional de visibilidade. A partir desse relato, a docente ressaltou a importância de discutir os desafios específicos para servidores LGBTQIA+, a fim de buscar construir uma universidade mais acolhedora.

A presidente da Comissão de Diversidade de Gênero e Sexualidade da UFMG ressaltou a vasta produção acadêmica da UFMG sobre temas LGBTQIA+, com 66 professores, quase 200 teses/dissertações e 56 projetos de extensão registrados. Ela também enumerou marcos históricos na UFMG, como o combate aos trotes LGBTfóbicos, a liberdade para estudantes LGBTQIA+ demonstrarem afeto, a adoção do nome social, a resolução de direitos humanos, a adoção de políticas de enfrentamento ao assédio e a conquista de vagas trans.

Gestão de pessoas, inclusão e propostas 

Prosseguindo com o debate, a professora Carla Spagnol destacou que, como gestora recém-empossada na PRORH, ela tem priorizado a escuta. A pró-reitora afirmou que o respeito à diversidade é um direito e um compromisso ético e democrático, não um favor. Por isso mesmo, o Orgulho LGBTQIA+ representa uma história de resistência, coragem e a defesa da dignidade humana e do direito de existir plenamente sem discriminação.

A professora Carla Spagnol ponderou que, apesar dos avanços, o preconceito, a invisibilidade e a exclusão ainda afetam o bem-estar e a saúde mental de servidora(e)s LGBTQIA+. Nesse sentido, ela destacou que o acolhimento institucional é um compromisso ético que envolve escuta, reconhecimento, criação de espaços seguros e enfrentamento de práticas discriminatórias.

A pró-reitora mencionou o Programa Federal ECOA (Prevenção e Enfrentamento do Assédio e da Discriminação), que orienta a administração pública federal em prevenção, acolhimento e tratamento de denúncias. Além disso, ela destacou como a UFMG já possui políticas importantes, assim como mantém o desafio de transformar esses instrumentos em experiências concretas de pertencimento e respeito, de forma integrada entre os setores.

Ademais, a professora explicou como a PRORH vem buscando propor ações, para a além da postura meramente reativa. Dessa forma, ela citou as seguintes propostas: implementar um programa institucional de tutoria para nova(o)s servidora(e)s LGBTQIA+; fornecer formação obrigatória sobre diversidade sexual e identidade de gênero para lideranças; desenvolver um sistema de reconhecimento para unidades que implementam boas práticas de inclusão; realizar pesquisas periódicas sobre o clima institucional LGBTQIA+ com indicadores específicos; elaborar protocolos para acompanhar pessoas em transição de gênero; implementar um programa de saúde integral LGBTQIA+ para a força de trabalho; e instituir uma política de diversidade com metas institucionais claras.

Concluindo a sua fala, a pró-reitora ressaltou que o acolhimento é uma construção permanente que exige escuta e coragem para enfrentar desigualdades.

Perspectiva sindical e políticas práticas

A técnica administrativa Cristina Del Papa, que possui 32 anos de trabalho na UFMG, compartilhou suas experiências iniciais de medo e preconceito como LGBTQIA+ no ambiente de trabalho e no movimento sindical. Ela defendeu a necessidade de transformar a sólida produção de conhecimento da UFMG em políticas práticas e efetivas.

A coordenadora geral do SINDIFES-MG destacou a importância de que, a partir da realização da 1ª Semana do Orgulho LGBTQIA+, a questão LGBTQIA+ passe a integrar o calendário oficial, demonstrando o compromisso da reitoria para com o tema. Nesse sentido, ela propôs um censo da comunidade LGBTQIA+ na UFMG (e nacionalmente para servidores federais) para conhecer o perfil, número e localização dos membros, com o objetivo de referenciar a criação de políticas mais eficazes.

Microfone aberto para as pessoas da plateia exporem as suas opiniões, dúvidas e comentários | Foto: Acervo do APUBHUFMG+.

Em sua fala, a TAE destacou, como principais desafios e propostas para a UFMG, as seguintes questões: respeito pleno à identidade de gênero e uso do nome social; comunicação inclusiva; igualdade de direitos parentais e benefícios; cuidado com a saúde de pessoas trabalhadoras em transição; enfrentamento efetivo do assédio e da LGBTfobia; e letramento e capacitação para servidora(e)s em geral (não apenas chefias) para promover o entendimento e respeito à diversidade.

Experiência de um servidor trans 

Finalizando as falas da mesa, tivemos a participação de Samuel Moreira Marques, técnico administrativo do Centro Pedagógico. Ele compartilhou sua história pessoal como servidor trans na UFMG. Dessa forma, o TAE testemunhou a importância da resolução, publicada em 2015, sobre o nome social. Em suas palavras, a normativa lhe deu amparo institucional, mas também revelou os desafios práticos de implementação. Nesse sentido, ele citou o fato dos sistemas da UFMG não serem integrados, levando 5 anos para ter o nome atualizado em todas as plataformas.

Marques também relatou dificuldades com o uso de pronomes corretos e a experiência de receber conselhos de “paciência” diante da lentidão de colegas em se adequar. Ainda assim, apesar dos desafios, o técnico ressaltou que a implementação da resolução serve como um instrumento para garantir direitos e evitar questionamentos. 

Retomando a fala da coordenadora geral do SINDIFES, ele pontuou que apoia a ideia de um censo para conhecer o número de servidores LGBTQIA+, pois acredita que “há mais pessoas trans do que se imagina”, pois muitas delas ainda estão “no armário” ou transicionam mais tarde na vida. Por fim, Marques definiu que a universidade precisa de políticas, formações e escuta para lidar com a crescente diversidade de estudantes e servidora(e)s, com intuito de transformar a UFMG em um lugar mais acolhedor e inclusivo.

A luta precisa continuar

Após as exposições da mesa, o microfone foi aberto para que as pessoas da plateia pudessem expor as suas opiniões, dúvidas e comentários. Dessa maneira, construímos um espaço para um debate livre e democrático.

A 1ª Semana do Orgulho LGBTQIA+ da UFMG, mas a nossa mobilização precisa continuar. Assim, o APUBHUFMG+ convida a categoria docente, assim como toda a comunidade acadêmica e a população em geral, a levantar essa bandeira de luta. Acolhimento, compreensão e empatia são ações essenciais para assegurar dignidade, inclusão e liberdade para todas as pessoas.

Nossas vidas são maiores que qualquer preconceito!

Acolhimento, compreensão e empatia são ações essenciais para assegurar dignidade, inclusão e liberdade para todas as pessoas | Foto: Acervo do APUBHUFMG+.

GALERIA DE FOTOS: 23/06/2026 | 1ª Semana do Orgulho LGBTQIA+ da UFMG: Abertura e mesa-redonda “Servidores e políticas institucionais LGBTQIA+”