Hiperconectividade, sofrimento psíquico e intensificação do trabalho docente: o que nos diz a Enquete Nacional do ANDES-SN
A Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente, realizada pelo ANDES-SN e lançada em maio de 2026, reafirmou algumas das pautas que vêm sendo discutidas sobre o adoecimento de professoras e professores. Os dados apontam para um processo de intensificação estrutural da atividade docente, marcado pela expansão da jornada de trabalho, pela hiperconectividade e pela crescente dificuldade de estabelecer limites entre o tempo dedicado ao trabalho e a outras esferas da vida.
Nesse sentido, um dos aspectos de destaque entre os resultados é a naturalização da disponibilidade permanente para as demandas laborais. A utilização cotidiana de aplicativos de mensagens, e-mails e plataformas digitais faz com que o trabalho ultrapasse os horários formais de expediente e ocupe períodos destinados ao descanso, ao lazer e à convivência. Uma lógica que dificulta a recuperação física e emocional necessária para a manutenção da saúde. Os resultados indicam que 81,8% das pessoas participantes já precisaram responder a demandas profissionais fora do horário de trabalho, dando notícias de que essa prática deixou de ser excepcional para se tornar parte da rotina das professoras e dos professores.
Essa sobrecarga constante produz consequências significativas, como sentimentos persistentes de exaustão, pressão por produtividade e insuficiência de tempo que passam a compor o cotidiano da docência, favorecendo o desenvolvimento de estresse crônico, ansiedade e esgotamento emocional. Outro dado relevante é que grande parte das e dos docentes percebe um aumento significativo das atividades em comparação ao período anterior à pandemia, acompanhado da sensação frequente de sobrecarga e da pressão constante para cumprir metas e prazos (83,1% dos participantes). Essa intensificação do trabalho decorre do aumento quantitativo das tarefas, mas também da ampliação das responsabilidades administrativas, burocráticas e de gestão, que se somam às atividades de ensino, pesquisa e extensão.
O impacto dessas condições aparece de forma direta na percepção da própria saúde. Uma parcela expressiva (67,8%) das e dos docentes relaciona seu adoecimento às condições em que o trabalho é realizado, indicando que o sofrimento psíquico está profundamente conectado à organização do trabalho nas instituições de ensino superior. A pesquisa também chama atenção para fatores psicossociais que agravam esse cenário, como a ocorrência de assédio moral, sexual e outras formas de violência e discriminação institucional, ambientes
marcados por relações de trabalho hostis, reforço à competitividade e insegurança que intensificam sentimentos de medo, desvalorização, isolamento e sofrimento emocional.
Os resultados da enquete revelam, ainda, que as desigualdades de gênero complexificam essas discussões. Entre as docentes respondentes, 88,1% sinalizaram sobrecarga, em comparação com 77,2% dos relatos entre os docentes. A dupla ou tripla jornada, decorrente da acumulação de responsabilidades profissionais, domésticas e de cuidado, pode ser uma das justificativas para uma percepção ampliada da sobrecarga entre as mulheres, assim como de um aumento dos fatores de risco para o adoecimento psicológico. Demonstrando, portanto, que as condições de saúde também são atravessadas por marcadores sociais como gênero e raça.
A importância para o APUBH
Mais do que acompanhar as pautas discutidas em âmbito nacional, o APUBH compreende que a promoção da saúde docente depende da construção de espaços permanentes de escuta, acolhimento, produção de conhecimento e incidência política sobre as condições concretas de trabalho vivenciadas pela categoria. Para que essa atuação seja efetiva, é fundamental acompanhar continuamente as transformações da docência e identificar os fatores que têm produzido sobrecarga, sofrimento psíquico e adoecimento.
Dentro dessa perspectiva, o APUBH tem acompanhado e buscado intervir no processo de revisão das normas que regulamentam a avaliação de desempenho para progressão e promoção docente. Nos encontros realizados em diferentes unidades, os relatos das e dos docentes evidenciaram o impacto que esse modelo de avaliação tem produzido na intensificação do trabalho e, consequentemente, no adoecimento da categoria.
Todo esse esforço tem sido conduzido no sentido de propor alterações na proposta de regulamentação, em debate no Conselho Universitário, orientadas para uma avaliação que mantenha o equilíbrio entre atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão acadêmica. O objetivo é promover o desenvolvimento profissional, a saúde e a qualidade de vida dos servidores públicos docentes da UFMG, sem produzir uma intensificação desmedida de seu trabalho que, paradoxalmente, reduz a contribuição social da nossa universidade em função do adoecimento da categoria.
A Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente, realizada pelo ANDES-SN, é uma importante ferramenta nesse processo na medida em que oferece um diagnóstico abrangente sobre os impactos das mudanças ocorridas nos últimos anos, especialmente após a pandemia, evidenciando a intensificação do trabalho e os seus efeitos
sobre a saúde. Entretanto, pesquisas dessa natureza só cumprem plenamente seu papel quando ultrapassam a dimensão do diagnóstico. Os dados não podem permanecer restritos aos relatórios ou às estatísticas, pelo contrário, precisam orientar decisões, fortalecer nossas reivindicações e subsidiar a construção de políticas institucionais de promoção à saúde.
Transformar essas evidências em ação significa reconhecer que o adoecimento docente é uma consequência das formas de organização do trabalho que exigem respostas coletivas e não individuais. Ao divulgar os resultados da enquete, o APUBH reafirma seu compromisso com a defesa de condições de trabalho que promovam a saúde, valorizem a docência e potencializem a universidade pública, utilizando esse conhecimento para qualificar o debate e subsidiar as ações e reivindicações do sindicato.
