APUBHUFMG+ integra seminário nacional sobre letramento de gênero

No dia 29 de julho, o APUBH participou do seminário “Letramento de Gênero: Formação Sindical para Enfrentar a Misoginia, a Violência e o Feminicídio”, promovido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), em formato remoto. A atividade integrou um conjunto de ações voltadas ao fortalecimento da formação política e sindical sobre gênero, direitos das mulheres, políticas públicas e enfrentamento às diversas formas de violência que atravessam a vida das trabalhadoras.
O seminário reuniu dirigentes sindicais, pesquisadoras e ativistas reforçando a importância de transformar a indignação frente à violência de gênero em organização coletiva. Ao longo da atividade, as mediadoras da instituição destacaram que o letramento de gênero é uma ferramenta fundamental para que sindicatos e entidades representativas sejam capazes de reconhecer as violências que atingem as mulheres antes que elas se convertam em suas expressões mais extremas, como o feminicídio. A defesa da vida das mulheres, ressaltaram, precisa estar presente na formação sindical, nas negociações coletivas, nos locais de trabalho e nas práticas cotidianas das instituições.
A participação do APUBH no seminário integra a agenda de acompanhamento das discussões nacionais sobre gênero, violência contra as mulheres e políticas de enfrentamento à misoginia e ao feminicídio, desenvolvida pelo Núcleo de Acolhimento e Diálogo (NADi) e pelo Grupo de Trabalho sobre Mulheres Docentes (GT Mulheres). Para o sindicato, esses debates possuem impacto direto na compreensão das desigualdades de gênero e no modo como elas repercutem nas condições de trabalho, na saúde, na trajetória profissional e na permanência das professoras nas universidades federais.
Congresso, direitos e disputa política
Entre as palestrantes, a advogada, pesquisadora e assessora técnica da Liderança do PT na Câmara dos Deputados Nicole Gondim Porcaro apresentou uma análise sobre o papel do Congresso Nacional na construção e também na limitação dos direitos das trabalhadoras. Sua exposição evidenciou que nenhum direito conquistado pelas mulheres brasileiras foi resultado de concessão espontânea do Estado, mas fruto de intensas mobilizações sociais. Em sua apresentação, a advogada percorreu marcos históricos como o direito ao voto, o Estatuto da Mulher Casada, a Constituição de 1988, a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e a Lei de Igualdade Salarial, demonstrando que o Parlamento é um espaço permanente de disputa política. Assim como chamou atenção para uma assimetria recorrente: leis que punem os agressores costumam avançar com maior facilidade, enquanto propostas que redistribuem tempo, renda, poder e responsabilidades de cuidado enfrentam maiores obstáculos.
Nicole Porcaro também discutiu os efeitos da Reforma Trabalhista de 2017 sobre as mulheres, destacando como mudanças apresentadas como neutras, aprofundaram as desigualdades de gênero. Outros temas abordados foram o orçamento para políticas públicas, igualdade salarial, regulamentação do trabalho, violência política e misoginia digital. A apresentação sintetizou a dimensão coletiva da luta feminista no mundo do trabalho e reafirmou que o enfrentamento ao feminicídio e à violência de gênero não é uma pauta restrita às mulheres, mas uma responsabilidade compartilhada por toda a classe trabalhadora e por suas entidades representativas.
Patriarcado, cultura e trabalho docente
Por sua vez, a socióloga e cientista política Ana Prestes, enfatizou que o combate à violência contra as mulheres exige enfrentar suas bases estruturais e necessita de ações educativas. Em sua intervenção, reforçou que não é possível abrir mão da discussão sobre o patriarcado e sobre a forma como essa estrutura organiza relações sociais, políticas e econômicas, produzindo consequências para a vida das mulheres brasileiras. Além disso, apresentou uma série de referências bibliográficas e obras fundamentais para o aprofundamento do debate sobre gênero, destacando que o letramento depende também da formação continuada, da produção de conhecimento e da circulação de perspectivas críticas sobre as desigualdades dentro dos diversos espaços sociais.
Essa deliberação dialoga diretamente com a realidade das docentes. Uma enquete recente realizada pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) indicou que 88,1% das docentes respondentes relataram sentir-se sobrecarregadas, percentual superior ao registrado entre os docentes homens (77,2%). O próprio levantamento estabelece uma relação entre essa percepção e as desigualdades de gênero, os dados convidam à reflexão sobre como a divisão sexual do trabalho e a dupla ou tripla jornada, decorrentes da acumulação de responsabilidades profissionais, domésticas e de cuidado, podem contribuir para uma experiência diferenciada de sobrecarga entre mulheres e homens. Razão pela qual o debate sobre o patriarcado torna-se essencial para discutirmos como as condições de trabalho, a produção acadêmica, a progressão na carreira e a saúde das mulheres docentes são atravessadas por relações de gênero e por outros marcadores sociais, como raça e classe.
Institucionalização e participação coletiva
A última fala da noite foi proposta pela advogada Clara Lis Coelho de Andrade que apresentou um panorama das iniciativas desenvolvidas pelo Ministério das Mulheres e da forma como a pasta vem se estruturando politicamente para consolidar políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero. Ela destacou que a institucionalização do próprio Ministério das Mulheres, assim como das políticas destinadas à esse público representa um passo fundamental para garantir continuidade na luta, orçamento, articulação federativa e capacidade de implementação nos territórios.
A advogada também enfatizou que o letramento de gênero ainda precisa alcançar os três Poderes da República, além das organizações sindicais, universidades e demais instituições públicas. Igualmente ressaltou que a participação em atividades formativas como o seminário não devem permanecer restritas às pessoas que delas participam diretamente, lembrando a importância de que o conhecimento produzido possa ser compartilhado entre pares, reproduzido nos espaços de trabalho e incorporado às práticas sindicais, ampliando sua capacidade de promover a ação coletiva.
O debate realizado pela CUT-Brasil através do seminário reforça um eixo de atuação que o APUBH assume como estratégico e prioritário. Neste ano, durante a Semana de Saúde Mental da UFMG, nosso sindicato promoveu uma discussão sobre Ouvidorias de Mulheres, buscando refletir sobre os mecanismos institucionais de acolhimento, escuta e enfrentamento às violências de gênero no ambiente universitário. A intenção do APUBH é dar continuidade a esse debate ao longo dos próximos meses, ampliando os espaços de formação, diálogo e organização. Essas atividades continuadas, desenvolvidas pelo NADi e pelo GT Mulheres, tem como objetivo fortalecer a presença das pautas de gênero no cotidiano sindical e promover mudanças institucionais que contribuam para a construção de uma universidade comprometida com a equidade de gênero e o enfrentamento da violência e discriminação.
Aproveitamos a oportunidade para convidar todas as docentes, bem como os docentes interessados em fortalecer essa agenda, a participarem das próximas reuniões do GT Mulheres e contribuírem para a construção de propostas voltadas à igualdade de gênero, à valorização do trabalho docente e ao enfrentamento das múltiplas formas de violência que afetam as mulheres na universidade.
