Análise de conjuntura – Informativo do APUH – Março de 2026

APUBH inaugura a seção de textos de análise de conjuntura que será publicada no primeiro informativo de cada mês. Confira a análise de março que situa o momento histórico em que se desenrola nossa luta pelos direitos dos docentes do Magistério Federal e por uma política adequada de financiamento das Instituições Federais de Ensino frente às ameaças externas e internas ao projeto de universidade pública e inclusiva que defendemos

Continua em curso uma crise prolongada do capitalismo, que se tornou visível na crise financeira de  2008 e 2009, e que expressa os limites da intensificação da financeirização da economia. Os desdobramentos dessa crise: 1- ampliaram a exploração e a retirada de direitos da classe trabalhadora; 2- aprofundaram a disputa geopolítica por recursos naturais, bem como a devastação da natureza em países agromineral-exportadores como o Brasil; 3- enfraqueceram iniciativas de contenção do aquecimento global, com o consequente aumento de eventos climáticos extremos e riscos à permanência da vida humana no planeta. Para manter as taxas de lucro, em meio a essa crise prolongada, as grandes corporações do capital financiam guerras e genocídios, como o que tem sido praticado contra o  povo palestino pela agenda sionista e imperialista no Oriente Médio e agora escalou para ataques militares contra a população do único país da região que contraria os interesses colonizadores de Israel e dos EUA. 

Já há algum tempo, a hegemonia mundial dos Estados Unidos da América (EUA) começou a ser ameaçada pelo crescimento econômico da China e pela reação de países do Sul Global que, temendo o uso reiterado do dólar como arma política materializada por meio de sanções unilaterais, passaram a diversificar suas reservas internacionais e reduzir a compra de títulos da dívida dos Estados Unidos, além de  buscar ampliar as relações econômicas sul-sul.  Para recuperar sua hegemonia econômica, os EUA promovem um agressivo e generalizado protecionismo no comércio e usam sua capacidade militar para impor seu domínio em territórios estratégicos, tais como o Oriente Médio, a Groenlândia e a  América Latina.  

Nesse cenário, a situação da América Latina fica em destaque pelos recentes ataques à Venezuela, que culminaram com o sequestro de seu presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores. Todo esse conjunto de acontecimentos torna imperativa uma luta unitária e internacionalista contra o imperialismo estadunidense, que ameaça todo o Sul Global, mas especialmente os países latino-americanos. Em nosso continente, os primeiros alvos são os países com governos ou sistemas de governo que os EUA consideram como exemplos ameaçadores de exercício de soberania, frente ao seu projeto neocolonial. Esse é, obviamente, o caso da Venezuela e de Cuba, mas também da Colômbia, do México e até mesmo do Brasil, tendo em vista o fato de que nosso país é um dos fundadores do BRICS.

A defesa da soberania dos países do Sul Global e de toda a América Latina confronta o ímpeto neocolonialista estadunidense, que está estampado na doutrina de segurança nacional daquele país publicada em 2025. Anunciado com pompa e circunstância por Donald Trump como uma retomada ou intensificação da Doutrina Monroe, o projeto neocolonialista estadunidense tem sido reiteradamente explicitado, tal como ocorreu na fala de Marco Rúbio, durante a Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2026. Combinada à escalada de novas ações militares dos EUA sobre o resto do mundo, as grandes corporações de tecnologia da informação situadas naquele país atuam como agentes imperialistas, com forte poder para interferir na governança e nos processos eleitorais dos países da América Latina, como pôde ser visto nas últimas eleições presidenciais no Chile e na Argentina.

No projeto neocolonial estadunidense é reservado, ao Brasil, o papel de exportar commodities agrícolas e minerais com baixo valor agregado. Trata-se, por conseguinte, de um projeto no qual não há lugar para as universidades públicas como instituições centrais ao desenvolvimento científico, tecnológico e cultural do nosso país. Isso porque, para a manutenção de uma economia agromineral-exportadora e predatória, na melhor das hipóteses, apenas áreas muito específicas do conhecimento produzido nas universidades são necessárias. Essa é a razão pela qual, mais do que nunca, quem defende as universidades públicas deve se sentir convocado a lutar por um projeto de Brasil justo, soberano e desenvolvido.  

No contexto atual e já prolongado de crise do capitalismo hegemonizado pelo capital financeiro, o projeto imperialista estadunidense é fortemente representado nos países latinoamericanos por uma burguesia antinacional, antipopular e antidemocrática. No parlamento brasileiro, os representantes dessa burguesia atuam de forma organizada dentro da coalizão de partidos do Centrão e da Extrema-direita. Nos países do capitalismo central, a crise do capitalismo, intensificada a partir de 2008, representa uma derrota do modelo neoliberal, mediante um movimento de fortalecimento do papel do Estado na economia, com maior intervenção pública na regulação de setores estratégicos. Por outro lado, nos países do Sul Global são reiteradas as políticas neoliberais, que promovem a privatização do que sobrou da participação do Estado na economia, o desfinanciamento das políticas públicas e a desregulamentação das políticas de proteção ambiental. Como resultado, ocorre a piora na qualidade de vida do povo, o que acelera a ruína das débeis e limitadas democracias liberais, mediante a ampliação da força política de movimentos neofascistas. 

A falência das democracias liberais tem permitido que as forças de extrema-direita se apresentem à classe trabalhadora como alternativas ao sistema político vigente. Contraditoriamente, esse sistema se torna ainda mais corrupto e excludente com a chegada da extrema-direita ao poder. Esse cenário foi bem evidenciado pelo governo de Jair Bolsonaro, no Brasil, e pelo que estamos a assistir na Argentina de Javier Milei. A supressão das liberdades democráticas é apresentada como uma necessidade de enfrentamento aos “diferentes” que também legitima expressões de ódio e ações violentas contra quem discorda, questiona ou, simplesmente, pertence a alguma minoria étnica ou política. A defesa de pautas morais, racistas e patriarcais também é forjada com o apoio de lideranças religiosas aliadas à Teologia da Prosperidade, para a qual a riqueza é vista como bênção divina e a superação da pobreza deve ser o resultado de esforço e mérito individual, pois sua origem provém da preguiça, falta de fé ou desobediência a princípios espirituais e morais. 

Em que pese a retomada de várias políticas sociais inclusivas, em um esforço de reconstrução do que foi destruído nos governos de Temer e de Bolsonaro, a frente ampla, criada para estancar o avanço da extrema-direita sobre o Estado e a sociedade, manteve uma política econômica orientada pela austeridade fiscal. Essa orientação impede a implementação, com a devida amplitude e eficácia, de políticas que reduzam a desigualdade social histórica em nosso país. Por essa razão, no campo de atuação do movimento docente, persiste o subfinanciamento das instituições federais de ensino com suas principais consequências, tais como a restrição a programas de assistência estudantil, a manutenção de condições de trabalho inadequadas para servidores docentes e técnico-administrativos, a desestruturação e precarização das carreiras do magistério federal, a falta de recursos para a produção de conhecimentos em cultura, artes, ciência e tecnologia.

Dentro de uma correlação de forças bastante desfavorável, o Poder Executivo busca uma governabilidade por meio de concessões a um Congresso Nacional controlado pelo Centrão e pela Extrema-Direita, em vez de mobilizar as forças sociais comprometidas com o acesso universal e qualificado aos direitos sociais garantidos por um serviço público de qualidade. O agrupamento político que domina o Congresso Nacional representa os interesses do mercado financeiro, do agronegócio e da mineração para os quais investir na qualidade de vida do povo trabalhador é um desvio de recursos do Estado. Esse agrupamento é um dos principais inimigos daqueles que defendem o serviço público. Isso é especialmente verdadeiro porque, durante os desgovernos Temer e Bolsonaro, o Poder Legislativo conquistou um controle excessivo do orçamento público a ponto de impedir o Poder Executivo eleito de investir em políticas públicas que façam valer suas propostas de campanha. 

Em ano eleitoral, os movimentos sindical e popular devem se unificar em torno de um programa mínimo que defenda os interesses da classe trabalhadora, abarcando também as frações dos trabalhadores informais e dos completamente destituídos de direitos. Com esse programa mínimo, os setores populares organizados da sociedade precisam tentar interferir no processo eleitoral, no limite de suas forças, para impedir a manutenção ou a ampliação numérica da presença dos congressistas inimigos do povo no Poder Legislativo e dos representantes da burguesia antinacional, antipopular e antidemocrática no Poder Executivo. 

Precisamos mandar para casa o maior número possível de parlamentares da atual legislatura que votaram contra o povo nas diversas pautas: segurança pública, direitos humanos, economia, preservação ambiental e manutenção das liberdades democráticas que, pelo menos a classe média e os setores menos marginalizados da sociedade têm nas democracias liberais. Para além de continuar a insistir na organização dos trabalhadores e das trabalhadoras, a prioridade política em 2026 precisa ser a de denunciar a atuação dos governadores inimigos do povo, bem como a dos deputados estaduais e congressistas. Precisamos tentar ampliar, nos espaços de poder institucionais, a presença de representantes comprometidos com as necessidades fundamentais e com os direitos do povo trabalhador.

Em Minas Gerais esse processo de luta mais geral implica fortalecer as ações construídas coletivamente na Secretaria Operativa Estadual das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. O APUBHUFMG+ tem participado do esforço de organização dessa Secretaria Operativa e repercutido nesse espaço as pautas específicas do movimento docente federal, bem como as pautas mais gerais de defesa dos serviços públicos. Em 2026, continuaremos atuando no sentido de sua consolidação e fortalecimento, por entender que apenas a força da classe trabalhadora organizada pode fazer frente aos interesses mesquinhos e subalternos dos setores dominantes da burguesia brasileira.

Cabe também ao APUBH, somar forças com a luta do movimento docente em nível nacional, no sentido de construir as ações prioritárias para 2026 que, certamente, estarão orientadas pela luta contra o subfinanciamento da Universidade Pública, da Ciência e Tecnologia, pela estruturação e valorização da carreira docente, pela a recuperação salarial e melhoria das condições de trabalho e pelo combate a propostas de contrarreforma administrativa de cunho neoliberal. Como tem sido historicamente, é uma conjuntura de muitos desafios que nos convoca para a luta!