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O Programa do NADi/APUBH desta semana debateu o sofrimento docente na Universidade

O Programa do Núcleo de Acolhimento e Diálogo vai ao ar, às segundas-feiras, no Canal do APUBH UFMG+ no Youtube.

No dia 28/09, a responsável pelo NADi/APUBH, Laís Di Bella Castro Rabelo, conversou com a psicóloga e servidora da UFMG, Juliana Antunes.

O Programa do Núcleo de Acolhimento e Diálogo (NADi) do APUBH desta semana conversou comJuliana Antunes, psicóloga e servidora da UFMG, sobre o tema “Sofrimento docente: um ‘antigo’ normal?”. A convidada desenvolveu, entre 2018 e 2019, uma pesquisa de mestrado em psicologia social sobre o sofrimento mental na Universidade pela perspectiva docente. A pesquisa foi realizada sob orientação de Maria Stella Goulart, professora do Departamento de Psicologia (FAFICH/UFMG) e presidenta do APUBH. ⠀

A conversa foi ao ar nesta segunda-feira (28/09), sendo conduzida por Laís Di Bella Castro Rabelo, psicóloga social especializada na área de saúde no trabalho e responsável pelo NADi/APUBH. Assista à entrevista na íntegra: https://youtu.be/A1JFb2WnXgw

Semanalmente, o Programa do NADi/APUBH recebe especialistas da UFMG para conversar sobre a saúde da mente e do corpo da comunidade acadêmica, durante o período de ensino remoto emergencial. A série de vídeos conta com um formato dinâmico, com duração média de 30 minutos. Acompanhe as transmissões ao vivo, às segundas-feiras, através do canal do sindicato no Youtube: https://tinyurl.com/canaldoapubh

Invisibilização do sofrimento docente

Juliana Antunes relembra que a ideia de realizar a pesquisa começou no período em que ela trabalhou no setor de recursos humanos da UFMG, realizando o acompanhamento de servidores. De acordo com ela, a maior demanda era de técnico-administrativos. Do mesmo modo, também era procurada a outra equipe, focada na saúde dos estudantes. No entanto, o setor era pouco procurado por professores.

A baixa procura por ajuda poderia sugerir que não havia sofrimento nessa categoria, o que não poderia estar mais distante da realidade. “A literatura indica um alto índice de adoecimento de docentes, e a nossa observação também nos trouxe esses elementos. Então, por isso, nós tentamos investigar e dar luz a esse sofrimento. Por que o sofrimento docente está sendo invisibilizado?”, refletiu a psicóloga.

Um primeiro ponto levantado na pesquisa foi a intolerância, no meio acadêmico, para se falar de sofrimento. “Demonstrar que está triste, demonstrar que está em sofrimento é demonstrar, de certa forma, que você está vulnerável. E isso, dentro de uma academia em que existe todo um status acadêmico, é complicado”, ponderou a servidora, a partir dos relatos que foram coletados.

Individualismo e produtivismo na Universidade

O relacionamento entre os pares é outro fator de adoecimento, ainda segundo os depoimentos levantados na pesquisa. E os conflitos já se iniciam na entrada do professor na universidade, durante o período de estágio probatório. “É um período de grande vulnerabilidade e sofrimento, onde são estabelecidas as relações de poder, que serão desenvolvidas ao longo do processo de inclusão do professor na universidade”, observou Juliana Antunes.

Ela ressalta que a deterioração dos relacionamentos também é causada pelo individualismo, que é próprio de um ambiente que não estimula a cultura de colaboração entre os docentes. “As dificuldades que são institucionais são sentidas como dificuldades pessoais. Esses professores estão submetidos a um cenário onde é promovida uma busca por um destaque individual, que não permite que sejam construídas relações coletivas”, analisou.

A busca por um destaque individual está diretamente relacionada ao produtivismo na universidade, outro fator de adoecimento que está muito presente nos relatos da pesquisa. “A gente está falando de produtivismo no sentido de superdimensionar a quantidade de publicações, em detrimento da qualidade daquilo que foi produzido”, definiu a psicóloga.

“Isso significa que os professores que não conseguem publicar dentro das normas, das regras ou do que é considerado ideal, pelos órgãos de financiamento, pela burocracia universitária e até pelo mercado, que dita algumas regras para dentro da universidade também, acabam tendo a carreira comprometida”, observou. “O produtivismo e a competitividade que isso cria impõem uma dinâmica de exclusão dentro da instituição, pelo que entendemos da fala desses professores. É exigida uma alta performance que ignora o conjunto de esforços reais”, completou.

Juliana Antunes: “As alternativas têm que ser coletivas, porquê assim elas têm mais força. Dessa forma, a gente atinge a categoria como um todo e atinge a estrutura.”

Sofrimento mental sob a perspectiva psicossociológica

Juliana Antunesobservou que as causas do sofrimento docente possuem características estruturais, que apontam para o próprio trabalho e rotina na academia. Ela explicou que o trabalho da pesquisa sobre sofrimento mental foi desenvolvido sob uma perspectiva psicossociológica, buscando, por meio do relato de experiências pessoais, compreender a realidade coletiva.

“É um indivíduo que manifesta aquele sofrer de uma forma única, uma forma dele, mas o que esse sofrimento comunica do entorno, do social? Durante todo o nosso trabalho, nós tentamos entender o sofrimento como algo que traz uma positividade, no sentido de que traz algo que comunica algo muito importante do ambiente”, definiu.

Construção de saídas coletivas

A psicóloga elenca algumas atitudes para amenizar o sofrimento, que costumam ser tomadas pelos professores. De acordo com ela, algumas das estratégias adotadas são: descredenciamento deliberado da pós-graduação; dedicação maior à extensão, que costuma ser entendida como uma alternativa à cultura produtivista;tentativas de mobilidade interna, que são difíceis devido à especificidade dos concursos para docentes; e o isolamento individual, principalmente.

Ela pondera que estas medidas possuem, em comum,o fato de serem individualistas e de não abrangerem o aspecto mais amplo da situação. Ainda segundo ela, estas são medidas paliativas que não atingem as raízes do problema. “A gente entende que isso não permite que a universidade se depare com essa situação e nem consiga pensar em possibilidades de ações que atinjam o coletivo”, pontuou.

Em contraposição às medidas individualistas, a psicóloga reforça a necessidade da construção de saídas coletivas. “As alternativas têm que ser coletivas, porquê assim elas têm mais força. Dessa forma, a gente atinge a categoria como um todo e atinge a estrutura. São questões estruturais, não são questões pontuais”, refletiu. “Como mudar a estrutura agindo cada um de uma forma individualizada? Isso é muito mais complicado”, completou.

A psicóloga social Laís Di Bella, responsável pelo NADi/APUBH, reforçou que o sindicato está aberto à categoria para a construção de saídas coletivas. Essas saídas são ainda mais necessárias nesse momento, devido às transformações emergenciais impostas pela pandemia da COVID-19.

Contribua,compartilhando a sua experiência!Preencha o questionário sobre o trabalho docente no ERE, disponível no hotsite do Núcleo de Acolhimento e Diálogo: https://apubh.org.br/acolhimento/

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