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Maternidade não cabe no Lattes: pesquisadoras relatam como conciliam filhos e carreira

É comum que pesquisadoras apresentem queda na sua produtividade científica e, consequentemente, no acesso aos financiamentos após se tornarem mães. A constatação deriva de pesquisa do projeto Parent in Science realizada no ano passado e que contou com a participação de cerca de 1.200 cientistas brasileiras.

Conciliar os desafios da maternidade com a carreira científica foi o tema da mesa-redonda Maternidade na carreira acadêmica, realizada nesta terça, 28, durante o 1º Congresso de Mulheres na Ciência da UFMG. Pesquisadoras trocaram experiências e reflexões sobre formas de superar esses obstáculos, contribuindo para que homens e mulheres tenham oportunidades iguais no universo da ciência.

Levantamento da Pró-reitoria de Pesquisa da UFMG mostra que os grupos de pesquisa são, em sua maioria, coordenados por homens. De 825 líderes, 44,61% são mulheres. Com relação às bolsas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 2017, dos 748 detentores desse incentivo apenas 35,96% eram mulheres.

A maternidade é um dos fatores que podem justificar discrepâncias relacionadas a gênero. Os relatos das três convidadas da mesa confirmam que, após a maternidade, a produção científica fica comprometida, mas atestam que com organização, planejamento e dedicação é possível conciliar todas as atividades.

Gerando estratégias
A professora Giliane de Souza Trindade, do Departamento de Microbiologia do ICB ingressou na docência em 2009. Por causa da carreira, optou por ser mãe somente aos 39 anos. Após processo de reprodução assistida, em 2012, nasceu Sofia e, para surpresa de todos, Giliane engravidou naturalmente em seguida, e Beatriz nasceu no ano seguinte. Nem o fato de ter duas filhas em sequência a fez deixar de publicar. Ela relatou que se viu obrigada a aprender a conciliar todas as responsabilidades.

Giliane Trindade conta que criou estratégias para manter a qualidade das relações com a família e com o trabalho. “O impacto da maternidade na minha carreira em longo prazo foi muito positivo. Aprendi a desenvolver facetas do meu comportamento, da minha personalidade e da minha forma de trabalhar que eu não conhecia”, relatou a professora, acrescentando que a maternidade aprimorou sua autoafirmação e resiliência.  

Ela revelou ainda que precisou se ajustar a novas rotinas. “É fundamental a separação dos papéis. Quando estou com minhas filhas, evito, por exemplo, responder e-mails. Em casa procuro trabalhar enquanto elas estão dormindo. Na universidade, foco no meu trabalho”, revelou. Para melhorar sua produtividade e garantir suporte permanente aos alunos, a professora passou a desenvolver projetos multidisciplinares e investir em redes de colaboração.

Maternidade sempre presente
Para Bárbara Mendes, residente de pós-doutorado no ICB, a maternidade veio antes da formação acadêmica. Sua primeira filha, Ana Clara, nasceu quando finalizava o ensino médio, aos 17 anos. Com o apoio da família, ela ingressou no curso de Ciências Biológicas. Enquanto cursava o último ano da faculdade, veio uma nova gestação, a do Gabriel.

Com coragem e suporte familiar, ela conciliou a criação dos filhos com a carreira acadêmica. Segundo Bárbara, foi a maternidade que a motivou a seguir adiante nos estudos, superando muitas dificuldades para poder oferecer uma vida melhor aos seus filhos. “Meus filhos são minha inspiração”, diz. Com muita dedicação e contando com apoio de seu orientador, o professor Evanguedes Kalapothakis, concluiu o mestrado em um ano e o doutorado em dois anos e meio.

Seus filhos cresceram com a presença constante da mãe. Era comum eles brincarem ao seu lado enquanto ela estudava. “O caminho é difícil, mas tem um retorno incrível, o de dar e receber amor por ser mãe”, concluiu.

História invisível
A professora Rosaline Cristina Figueiredo e Silva, do Departamento de Geologia do IGC, vivia “ritmo intenso” na profissão quando, em 2014, resolveu fazer tratamento para engravidar. O resultado foi a chegada de Clara. “Retomar a carreira após a licença-maternidade é difícil”, disse a pesquisadora, que descreveu as dificuldades de compatibilizar as atividades familiares com as do trabalho e a angústia que passou quando teve que desmamar sua filha. Para completar, seu marido teve de trabalhar em João Pessoa durante dois anos, o que aumentou ainda mais as suas atividades e responsabilidades como mãe, mas nem por isso ela deixou de cumprir sua missão acadêmica.

“A produção nos é cobrada o tempo todo. Nós, mães cientistas, temos um currículo Lattes e, ao mesmo tempo, a história invisível do nosso dia a dia. Ninguém sabe o que passamos para chegar aqui”, desabafou Giliane Trindade.

Durante o evento foi sugerida a criação de um grupo multidisciplinar sobre esse tema, para possibilitar a troca de experiências e a proposição de ideias para políticas públicas de apoio. A ideia é que uma mulher não corra o risco de ser descredenciada de um programa de pós-graduação em decorrência da queda de produtividade provocada pela maternidade.

Identificação
A plateia da mesa-redonda Maternidade na carreira acadêmica reuniu vários homens. Caio Ribeiro Soares Oliveira, aluno de graduação de Ciências Biológicas, fez um relato emocionante ao lembrar que, quando criança, brincava ao lado da mãe enquanto ela estudava para construir uma carreira acadêmica. Ele elogiou a capacidade das três integrantes da mesa de superar os desafios da maternidade. “Vocês são exemplos para seus filhos e para todos nós”, disse.

A programação do 1º Congresso de Mulheres na Ciência da UFMG encerra-se na próxima sexta-feira, 31. Os vídeos do evento ficarão disponíveis no canal da Coordenadoria de Assuntos Comunitários (CAC UFMG).

Cláudia Amorim

 

Fonte: UFMG (Site/Notícias)