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CNPq publica edital para incentivar meninas na carreira de ciências exatas

Vanderlan Bolzani, vice-presidente da SBPC, e Thereza Cristina de Lacerda Paiva, professora do Instituto de Física da UFRJ e uma das idealizadoras do projeto “Tem Menina no Circuito”, afirmam que oportunidades como essa estimulam e despertam o interesse de meninas para as carreiras de ciências exatas, engenharias e computação no Brasil

Na última segunda-feira (20), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) lançaram a Chamada “Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação”. A iniciativa, que representa um investimento total de R$ 3 milhões, estimula a aproximação das escolas públicas da Educação Básica com as Instituições de Ensino Superior. O edital engrossa as manifestações da comunidade científica sobre a necessidade de ampliar o interesse e a participação de meninas e mulheres nas áreas de ciências exatas e reduzir a desigualdade de gênero. As propostas podem ser enviadas até o dia 5 de outubro de 2018.

O edital tem como objetivo estimular a formação de mulheres para as carreiras de ciências exatas, engenharias e computação no Brasil; despertar o interesse vocacional de estudantes do sexo feminino da Educação Básica e do Ensino Superior por essas profissões e para a pesquisa cientifica e tecnológica; e combater a evasão que ocorre, principalmente nos primeiros anos, de meninas dos cursos de graduação nessas áreas.

Vanderlan Bolzani, vice-presidente da SBPC, afirma que oportunidades como essas são importantes para atrair meninas para as áreas de ciências exatas, mas que também é preciso criar uma estrutura na qual elas enxerguem espaço nessas áreas para desenvolverem suas atividades. “Editais como esses são um pontapé fundamental porque muitas meninas têm vontade de estudar e fazer pesquisa. Até iniciam, mas desistem da carreira por diversos fatores, dentre eles, desconhecimento e preconceito. Muitas pessoas não acreditam que mulheres possam fazer ‘hard sciences’. O que está errado”, afirma.

Para Bolzani, que também é professora titular do Instituto de Química da Unesp/Araraquara, a iniciativa é importante, mas é preciso incentivos em todos os níveis. “Quanto antes melhor. Temos de incentivar as meninas de 6 e 7 anos a explorar mais e mais a curiosidade, a estudar matemática e exatas e mostrar que meninas excelentes observadoras, um dado importante para serem cientistas e mostrar que há espaço para mulheres nessa área, sim”, finaliza.

Thereza Cristina de Lacerda Paiva, que é professora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e uma das idealizadoras do projeto “Tem Menina no Circuito”, também concorda que o edital é uma oportunidade para atrair meninas para a área de exatas, e acredita que projetos do tipo vão além, pois ampliam a visão de futuro de muitas crianças. “O nosso projeto surgiu em resposta ao edital de 2013 do CNPq, e já atendemos 40 meninas na escola estadual Alfredo Neves, em Nova Iguaçu, na baixada fluminense (RJ). Desse total, cinco entraram no ensino público superior e duas delas estão estudando Física”, explica, ao afirmar que ela, juntamente com outras duas professoras que coordenam o projeto, Elis Sinnecker e Tatiana Rappoport, viram no edital daquele ano a oportunidade de colocar em prática o sonho de criar algo para incentivar a participação feminina nas carreiras de ciências exatas. “O edital de 2013 catalisou nossa ideia, mas tenho certeza de que outros grupos surgiram na época”, afirma.

A pesquisadora explica que a escola onde o projeto é aplicado fica em uma área de baixa renda do Rio de Janeiro, onde o ensino médio é visto, pela maioria das famílias, como o ponto final da educação. “Os pais e responsáveis daquelas crianças não têm ensino superior e acabam orientando o filho a procurar um emprego assim que termina o ensino médio. Por isso, além das nossas oficinas, passamos a dar orientações acadêmicas, como buscar a universidade, como usar a nota do Enem, entre outras informações”, explica.

A pesquisadora conta que o “Tem Menina no Circuito” também amplia e oferece atividades que agregam toda a escola. “Tenho garotos que participam de tudo que oferecemos. Um deles entrou agora em Biologia na UFRJ”, comemora ao afirmar que o projeto impacta também positivamente as famílias. “Fiquei super feliz ao saber que a irmã mais velha, que já é mãe, de uma das meninas que entrou na universidade resolveu voltar a estudar vendo a trajetória da outra. Notícias assim mostram que estamos no caminho certo e que temos um alcance que a gente nem vê”, afirma.

Paiva afirma que nessa quinta-feira (23), o “Tem Menino no Circuito”, começou a atuar também no Ciep 2018 – Intercultural Brasil Turquia, que fica em Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). “Ontem fizemos a primeira oficina para explicar o que é o projeto. Mas chegamos nessa instituição a convite do diretor que nos convidou, via e-mail, ao afirmar ‘que acredita no poder transformador da educação’. Diante disso, não tínhamos como negar. E agora, com esse novo edital do CNPq, já estamos estudando a possibilidade de ampliar a atuação para três ou cinco escolas de vez”.

Segundo a diretora de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais do CNPq, Adriana Tonini, apesar do número de mulheres com bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado ser superior ao de homens, elas representam apenas 33% do total de bolsistas de Produtividade em Pesquisa, a mais prestigiada modalidade do CNPq. Além disso, há desigualdades mais acentuadas em áreas específicas, como é o caso das ciências exatas, engenharias e computação. Publicações de áreas como Computação e Matemática têm mais do que 75% de homens na autoria dos trabalhos, para citar outro exemplo. Ela afirma ainda que a proporção de mulheres que publicam artigos científicos cresceu 11% no Brasil nos últimos 20 anos e elas publicam quase a mesma quantidade que os pesquisadores homens (49%). Os números são do relatório Gender in the Global Research Landscape, Elsevier, de março de 2017.

Informações sobre a Chamada

As escolas deverão se comprometer em garantir condições para realização das atividades do projeto e escolher um professor (das áreas de ciências, matemática, física, química, computação ou tecnologias) que se responsabilizará por organizar as atividades do projeto na escola.

Cada proposta deve prever, de acordo com o número de escolas públicas participantes do projeto, a participação de uma, duas ou três estudantes de graduação do sexo feminino matriculadas em cursos das áreas de ciências exatas, engenharias ou computação e de três a quinze estudantes da Educação Básica do sexo feminino, matriculadas nas escolas participantes do projeto.

Os participantes dos projetos, alunas e professores, receberão bolsas de iniciação científica e apoio técnico, respectivamente.

Veja a Chamada para ter as informações completas sobre critérios, condições e exigências.

Histórico

A Chamada é fruto de um esforço da Diretoria de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais do CNPq para reduzir as desigualdades de gênero na pesquisa científica, tecnológica e de inovação.

A questão de gênero tem sido tão importante nos debates que a ONU, em sua agenda 2030 (http://www.agenda2030.com.br/), com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), aponta a igualdade de gênero (5) e a redução das desigualdades (10) como itens a serem alcançados.

O Brasil, como país membro da organização, está comprometido com esses objetivos, tendo a Chamada 31/2018 como uma das ações para o alcance do ODS 5. Essa ação soma-se às iniciativas anteriores, já que, há 13 anos, o CNPq vem promovendo projetos nesse sentido, com o programa Mulher e Ciência.

A primeira Chamada “Meninas nas Exatas” foi lançada em 2013 e apoiou 325 propostas. Além disso, foram lançadas quatro chamadas de apoio a projetos de pesquisas nas temáticas relações de gênero, mulheres e feminismos, com 659 projetos aprovados e R$ 21 milhões investidos.

O CNPq também desenvolveu iniciativas de estímulo e divulgação do trabalho de mulheres pesquisadoras com o Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero, com dez edições já lançadas; dois encontros “Pensando Gênero e Ciência”, seis edições do projeto Pioneiras da Ciência, entre outras ações.

 

 Vivian Costa – Jornal da Ciência, com informações do CNPq

 

Fonte: SBPC