Mulheres na pesquisa: muitas pedras no caminho

Confira a reportagem publicada pela Academia Brasileira de Ciências.

Integrando o grupo que hoje ocupa a maior parte das vagas no ensino superior brasileiro – as mulheres -, a Acadêmica e bióloga Fernanda Werneck, de 37 anos, não conseguiu escapar do preconceito e dos questionamentos sobre sua competência por ser uma jovem mulher cientista, durante o mestrado em ecologia na Universidade de Brasília (UnB). Foi você mesma quem escreveu isto? Não é muito jovem para ser cientista? Vai ser mãe agora? Infelizmente, é este tipo de indagação e desconfiança que tem acompanhado a carreira das mulheres até os dias de hoje, dentro e fora da Academia.

No caso específico da participação feminina na pesquisa científica, dois grandes problemas as têm impedido de alcançar as mesmas posições e cargos que homens com formação igual: o preconceito fundado no sexismo e a queda de produtividade durante a gravidez e maternidade.

Uma pesquisa realizada entre 2013 e 2014 investigou a distribuição por gênero de bolsistas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e seus resultados evidenciaram desequilíbrios entre os gêneros em todos os indicadores estudados da ciência brasileira. O estudo mostrou que, entre os bolsistas de produtividade, as mulheres cientistas estavam mais representadas nos níveis mais baixos do sistema de classificação, enquanto os cientistas do sexo masculino foram frequentemente encontrados nos níveis mais altos (1A e 1B) das bolsas de produtividade.

Fernanda Werneck é membro afiliado da Regional Norte da ABC para o período 2017-2021

Doutora em biologia integrativa pela Brigham Young University, nos Estados Unidos, ela é pesquisadora associada do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e, hoje, está atuando como professora visitante na Harvard University (2019). Foi vencedora do prêmio Internacional Rising Talents da L´Oréal-Unesco For Women in Science de 2017 e do prêmio L´Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência 2016, na área Ciências Biológicas.

Com sua capacidade e talento hoje reconhecidos, Fernanda Werneck teve que aprender a lidar com a discriminação de gênero ao longo de sua carreira. Ela confessa que muitas vezes nem chegou a perceber que estava sofrendo preconceito por ser mulher, mas completa: “Conforme adquiri vivência, hoje sei identificar melhor essas situações e sei que dificilmente determinados comentários e questionamentos teriam sido colocados para um colega do sexo masculino”.

Em 2005, Werneck engravidou enquanto realizava o mestrado. Nesta época, não havia licença-maternidade para bolsistas da pós-graduação. Apenas em dezembro de 2017 foi sancionada a Lei 13.536/2017, que permite a prorrogação dos prazos de vigência das bolsas de estudo concedidas por agências de fomento à pesquisa nos casos de maternidade e de adoção.

Ainda assim, como mostra o mini-documentário “Fator F – Filho, Filha, Filhos” (2018), dirigido por Maria Lutterbach, são muitos os obstáculos enfrentados pelas mulheres que combinam carreira científica e maternidade.

Entrevistada no vídeo, a bióloga Fernanda Staniscuaski falou sobre a necessidade de se discutir e pesquisar sobre o tema, evidenciando estatísticas que apontem os problemas a serem solucionados. Uma das alternativas encontradas pela cientista foi a criação do Parent in Science, projeto que surgiu com o intuito de levantar o debate sobre maternidade e paternidade dentro do universo da ciência do Brasil.

Como aponta Werneck, outras ações possíveis para o alcance da equidade de gênero na pesquisa científica são a promoção de iniciativas que apreciem e facilitem a permanência da mulher na ciência, como o Programa L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência; e a valorização da carreira de cientista e posições que respeitem os direitos da maternidade, como o concurso da Universidade Federal Fluminense (UFF), que pontua docentes que tiraram licença-maternidade no edital do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), de 2019.

 

Fonte: ABC

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