Academia Brasileira de Ciências: Os desafios da ciência no Brasil – Parte 1

O presente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, fez uma palestra especial no evento Simpósio e Diplomação dos Novos Membros Afiliados da Região Rio de Janeiro, no dia 14 de setembro.

Para falar da ciência brasileira, Davidovich fez um percurso histórico, que nos ajuda a entender melhor a situação atual.
Os primórdios da ciência no BrasilO Brasil, segundo ele, começou mal na ciência, com a colonização portuguesa, interessada apenas em explorar a colônia tropical, praticando uma política basicamente extrativista: ouro, diamante, açúcar, café. Em maio de 1747, D. João V proibiu a impressão de livros no Brasil, como uma forma de apertar realmente o controle da colônia. Nessa linha, em 1785 D. Maria I proibiu manufaturas no Brasil.

A mudança ocorreu graças a Napoleão Bonaparte, quando invadiu a Península Ibérica. Em 1808, a família real fugiu de Portugal para o Brasil. E fugindo de Napoleão, ela precisava de imprensa, de editoras, de uma escola cirúrgica. A Academia Militar do Rio de Janeiro foi fundada neste período, assim como a Academia de Medicina, o Jardim Botânico e o Museu Nacional. “Jamais se imaginaria que o Museu um dia seria destruído da forma como o foi, em 2 de setembro último. A luz que o incêndio gerou representou um apagão na história brasileira.”

Em 1822, com a independência do Brasil, novas instituições foram criadas: Faculdades de Direito em 1827; Observatório Astronômico, que hoje é o Observatório Nacional; a Escola de Minas de Ouro Preto; o Instituto Agronômico de Campinas, sementes da ciência made in Brazil.

Com a República, em 1889, novas instituições foram criadas. O Instituto Oswaldo Cruz, em 1900 e o Instituto Butantã, em 1901, ambos com a missão de produzir soro antiofídico e vacinas, e que se dedicaram também a pesquisa básica em biomedicina. Em particular, começaram a estudar a Doença de Chagas, em 1909. “O médico Carlos Chagas fez um estudo detalhado de toda a sequência dessa doença. Foi um trabalho extraordinário, pelo qual muita gente achava que ele merecia um Prêmio Nobel”, destacou o presidente. Nesse período começam, então, a medicina brasileira, a biologia brasileira, as coleções brasileiras.

Os primórdios da agricultura, já com o Instituto Agronômico de Campinas, fundado em 1887, se desenvolveram com a Escola de Agricultura Luiz de Queiroz, fundada em 1901; e a então nomeada Escola de Agricultura e Pecuária de Viçosa, que depois tornou-se Universidade Federal de Viçosa e formou o primeiro doutor em Agricultura e Pecuária. “É interessante ver como essa formação de pessoal qualificado se constituiu em uma verdadeira política de Estado no Brasil, em longo prazo, não sabemos se de forma deliberada. Atendia às necessidades locais da agricultura paulista, mas foi a semente da Embrapa. O sucesso da agricultura brasileira não é um milagre, ele começou aí, baseada em boa ciência.”

As primeiras universidades brasileiras surgiram no início do século XX. Davidovich diz que o Livro Guiness de Recordes cita a Universidade Federal do Amazonas, criada em 1909, como a primeira do país. Em seguida vieram a Universidade do Paraná, em 1912; a Universidade do Rio de Janeiro, em 1920; e a Universidade de São Paulo, em 1934. “Esta foi, de fato, um marco, porque trouxe pesquisadores estrangeiros. Foi uma reação salutar à derrota paulista na Revolução Constitucionalista de 1932”.

Davidovich então apontou a diferença de datas entre a fundação de universidades brasileiras e outras pelo mundo afora. A Universidade de Bologna, na Itália, foi criada em 1088; a Universidade de San Marcos, em Lima, no Peru, é de 1581; a Universidade de Córdoba, na Argentina, foi fundada em 1613; e a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em1636. “Aí podemos ver a grande diferença entre a colonização espanhola e a colonização portuguesa, entre os países de um lado e do outro da linha de Tordesilhas”, destacou o palestrante.

O papel da Academia

Foi mais ou menos na mesma época da criação das primeiras universidades que surge a Academia Brasileira de Ciências, em 1916, chamada então de Sociedade Brasileira de Sciencias. Alguns dos criadores da SBS foram Henrique Morize, o primeiro presidente; Oswaldo Cruz; Roquette-Pinto, fundou uma rádio de caráter educativo dentro da Sociedade; Juliano Moreira, psiquiatra, que foi também presidente da Academia. “Esses foram os pioneiros, os heróis, os que começaram o processo de criação de uma academia de ciências”, apontou.

De novo, Davidovich comparou as datas de fundação – a Academia de Ciências da França foi criada em 1666, e a National Academy of Sciences, nos Estados Unidos, em 1863. “Nossa ciência começou tarde, por causa do tipo de colonização que tivemos. Mas levando isso em consideração, o que essa ciência alcançou em muito pouco tempo é impressionante”, acentuou.

A Academia Brasileira de Ciências esteve na origem da fundação de agências de fomento e entidades científicas de grande importância para o país. “O CNPq, criado em 1951 com o nome de Conselho Nacional de Pesquisa, foi fundado pelo Almirante Álvaro Alberto, que era presidente da Academia Brasileira de Ciências e foi também o primeiro presidente do CNPq”, relatou Davidovich. Por meio da ação de membros da Academia foram criadas ainda a Capes (Coordenação de Pessoal de Ensino Superior), a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). “Então a ABC realmente teve uma importância muito grande na institucionalização da ciência brasileira, em particular no apoio à pesquisa”, arrematou. Confira no livro sobre o Centenário da ABC.

Ciência para alimentar pessoas

Um dos resultados desses investimentos iniciais foi a Embrapa, que surgiu graças ao que foi feito lá no início do século XX, com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, o Instituto Agronômico de Campinas, depois com a Universidade de Viçosa. “Quando a gente fala do sucesso da Embrapa, estamos falando do uso da ciência aplicada aos alimentos. Isso inclui coisas sofisticadas, como por exemplo a genética, que tem um papel cada vez mais importante”, observou o físico.

E Davidovich fez questão de ressaltar o papel das mulheres. “Também temos heroínas na ciência, como a Johanna Dobereiner, que descobriu um método de fixação de nitrogênio no solo usando bactérias”, informou (veja a animação da ABC sobre o tema). De acordo com o palestrante, graças ao método descoberto pela Acadêmica e pela campanha que ela fez para mostrar que o Brasil devia adotar esse método, a produtividade da soja foi multiplicada por quatro, no mínimo: em algumas regiões, a produção chega a ser sete, oito vezes maior em função da aplicação do método.

“Graças a ela, o Brasil não precisa importar adubo nitrogenado, economizando, com isso, bilhões de dólares a cada ano. Comparem esse ganho com o que foi investido no laboratório da Johanna, que era aqui no estado do Rio de Janeiro, próximo a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, com a qual ela também colaborava. Provavelmente, a razão entre o investimento na ciência da Johanna e o lucro que ela gerou deve ser mínimo”, ponderou.

Ciência para extrair petróleo do pré-sal

Outro sucesso importante da ciência brasileira é o pré-sal. “Alguns devem se lembrar, que há pouquíssimos anos, cinco ou seis, as pessoas diziam que “essa história do pré-sal é uma aventura, isso não vai dar certo, é muito caro, não tem sentido.” No entanto, hoje o pré-sal corresponde a mais de 50% da produção de petróleo do Brasil. “Isso não é sorte, não é milagre, é ciência. E uma ciência desenvolvida em vários laboratórios, em todo o Brasil, em colaboração com a Petrobras”.

Davidovich mostrou a imagem do tanque oceânico da Coppe, com 23 milhões de litros, usado para fazer testes em protótipos de plataformas de petróleo, com as devidas reduções de dimensões. “Era o maior tanque oceânico do mundo. Não sei ainda se é, porque há poucos anos atrás veio uma delegação chinesa visitar a Coppe e ficaram admirados com esse tanque, então possivelmente agora ele deva ser o segundo maior do mundo”, ironizou.

Ciência na aviação

Davidovich remeteu-se, ainda à Embraer. “Os aviões da Embraer estão presentes no mundo inteiro, ocuparam um nicho do mercado. Isto é possível hoje graças à ciência e tecnologia brasileira, graças às pesquisas desenvolvidas pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e por universidades brasileiras.

Mas o palestrante não se limitou ao que chamou de exemplos clássicos: Embrapa, Petrobras e Embraer. Destacou que há muitos outros, menos conhecidos.

Exemplos vão além dos clássicos

“Vocês sabem qual é a maior empresa de compressores do mundo? Compressores para ar-condicionado, geladeira? Não sabem. A maior empresa de compressores do mundo se chama Embraco – Empresa Brasileira de Compressores – e foi construída graças ao Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)”, conta o presidente da ABC. A Embraco, segundo ele, foi comprada há cerca de dez anos pela Whirlpool, que transferiu para Santa Catarina seu laboratório internacional de compressores, para aproveitar os profissionais de lá. Mais recentemente, foi vendida para os japoneses. “Não sei o que eles vão fazer com ela. Esse é um problema sério no Brasil de hoje: a desindustrialização. Espero que eles não tirem a Embraco daqui”, alertou Davidovich.

Ele seguiu com outros exemplos: a WEG, que é uma empresa de equipamentos elétricos com protagonismo internacional; a Natura, que está concorrendo com a L’Oréal em vários países e que utiliza ingredientes originados da biodiversidade brasileira; o enriquecimento de urânio no Centro Tecnológico da Marinha, com tecnologia nacional; o Laboratório Nacional de Luz Sincrotron, agora com a nova fonte Sirius, tem uma colaboração intensa com várias empresas brasileiras, nas áreas de materiais, saúde, vacinas, etc.

A qualidade da ciência brasileira

Na área de saúde, outra grande mulher da ciência se destaca. Considerada pela Time Magazine uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2017, a Acadêmica Celina Turchi descobriu a relação entre o vírus da zika e a microcefalia, coisa que nunca antes havia ocorrido na medicina: uma picada de mosquito ser associada a um defeito de nascença. “Mas as heroínas e os heróis dependem daquele investimento inicial feito na construção de laboratórios, na construção de equipes, enfim, na construção de um ambiente científico que leva décadas para ser construído e pouquíssimos anos para ser destruído”, alertou Davidovich.

O presidente da ABC referiu-se à formação de recursos humanos. Hoje, o Brasil está formando mais de 20 mil doutores por ano, e o número de artigos por milhão de habitantes no Brasil cresce, além do crescimento mundial. O percentual de citações de artigos brasileiros também está subindo. “Então, apenas não estamos produzindo mais, como estamos sendo mais lidos e mais mencionados”.

Os desafios para o futuro da ciência brasileira

Davidovich mostra que alguns destes desafios já foram delineados por várias publicações da Academia Brasileira de Ciências. A comunidade cientifica vem trabalhando incansavelmente em sugestões de políticas cientificas, detalhadas em livros disponíveis para baixar no portal da ABC.

“O livro sobre Reforma da Educação Superior no Brasil, de 2004, foi muito influente no projeto da Universidade Federal do ABC, por exemplo. Fizemos uma atualização agora, em 2018. O livro sobre a Amazônia resultou em bolsas especiais dos para pesquisadores que fossem trabalhar nos estados amazônicos, em problemas da região. E temos publicações sobre o ensino de ciências na educação básica, educação infantil, doenças negligenciadas, medicina translacional, recursos hídricos, recursos minerais, enfim, trabalhos realizados por cientistas brasileiros de excelência, gratuitamente, para um amplo espectro de problemas brasileiros.”

Davidovich destacou o livro recém lançado, “Um Projeto de Ciência para o Brasil”. Ele contou que “foram 180 cientistas, entre membros da ABC e convidados, trabalhando nesse projeto, que tem 16 capítulos, envolvendo ecossistemas, neurociência, nanotecnologia, atividades aeroespaciais, inovação, enfim apresentando o estado da arte de várias áreas da ciência, associadas a propostas de políticas públicas.”

Para os candidatos à presidente do Brasil também vem sendo elaborados documentos resumidos, já há vários anos. “O documento para estas eleições foi enviado às assessorias de todos os candidatos, que foram convidados a virem à sede da ABC conversar com a comunidade científica. O último que veio foi o Ciro Gomes.”

Ele mostrou ainda o Livro Azul da 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em 2010, e coordenada por ele. A 4ª CNCTI envolveu milhares de pessoas de vários setores da sociedade: academia, governo, empresas, grupo indígenas, movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores, falando sobre ciência e tecnologia e apresentando propostas de políticas públicas.  “Para minha surpresa, foi possível todos esses setores da sociedade brasileira chegarem a um consenso. Essa política foi discutida por todo o primeiro semestre de 2010, em reuniões regionais, reuniões temáticas e, finalmente, numa reunião de três dias em Brasilia. O governo que quiser segue isso.”

O desafio da biotecnologia baseada em biodiversidade

Citar todas as propostas seria impossível, mas Davidovich elencou algumas mais importantes, em seu ponto de vista. “O Brasil tem 20% da biodiversidade do mundo, estima-se conheçamos apenas 5% dessa biodiversidade nacional. Essa biodiversidade está na Amazônia, no Cerrado, no semiárido, no pantanal, nos pampas, na mata Atlântica e no mar costeiro. É um país que tem tudo para desenvolver uma bioeconomia forte e crescer com isso”, apontou.

Entre os obstáculos para que essa perspectiva se concretize está a legislação. Especificamente, o Decreto 8.772, de maio de 2016, que regulamenta a lei de biodiversidade, que está impedindo a pesquisa do Brasil sobre a biodiversidade brasileira. “No Norte vimos muitos cientistas abandonando as pesquisas com plantas medicinais, porque se tornou um inferno. Estão se dedicando a pesquisar os fungos, por exemplo, porque para eles não há restrições. Mas isso é uma grande perda econômica para o Brasil, porque vêm os cientistas estrangeiros, trabalham com a nossa biodiversidade e desenvolvem produtos e patentes, porque não estão submetidos às mesmas restrições burocráticas dos pesquisadores brasileiros.”

O presidente deu um exemplo: na Amazônia há uma planta chamada Endopleura Uchi; ‘uchi’ significa amarelo em língua indígena. Dela extrai-se uma substância chamada bergenina, que tem grandes poderes anti-inflamatórios e antioxidantes. “Ela está sendo vendida no Brasil pelo laboratório Merck, purificada a mais de 95%, por R$1.000 o miligrama. O ouro custa R$125 reais o grama, ou seja, a relação do preço entre a bergenina e o ouro é de 10.000. Isso vem da Amazônia, não é uma molécula grande – C14H16O9 – , então o laboratório Merck pega, sintetiza, coloca mais um radical para fazer a patente, e assim a patente é deles”.

Assim, Davidovich reafirma que uma biotecnologia baseada na diversidade é certamente uma vocação do Brasil. “Temos que ter laboratórios farmacêuticos que façam esses remédios novos, ao invés de ficar fazendo genéricos, que não são inovações, são cópias. Nós precisamos fazer inovação disruptiva, remédios que atendam a população brasileira e a humanidade e que permitam democratizar o custo dos medicamentos aqui no Brasil, alguns são caríssimos e a população brasileira não tem acesso, só os ricos. Essa é uma questão fundamental que tem a ver com a ciência e tem a ver com indústria”.

O desafio dos grandes equipamentos

Entre os grandes desafios nacionais estão as atividades espaciais, para o que um satélite brasileiro é importantíssimo, não só para segurança nacional, mas para a prospecção do território. “Satélites são instrumentos importantíssimos para a ciência e para a segurança”,  reforçou o presidente da ABC.

A construção da nova fonte de luz sincrotron, o Sirius, é uma grande conquista, será inaugurado ainda este ano. “Estava lá, no Livro Azul da Conferência Nacional, foi uma batalha científica que vencemos.”

Outro desafio é o reator multipropósito (veja imagem abaixo). “Esse reator produz radio fármacos, que têm vida útil muito curta. Quando importamos, temos que encomendar uma quantidade muito maior do que o necessário, porque eles vão decaindo. Até chegar ao hospital, vai haver apenas uma pequena fração ainda radioativa. Então é importante produzir isso no Brasil, em quantidade grande, para os hospitais brasileiros.” Davidovich conta que há dois meses foi a uma cerimônia em São Paulo, no Centro Tecnológico da Marinha, onde eles enriquecem uranio, para o lançamento da pedra fundamental do reator multipropósito. Mas ao conferir o orçamento de 2019 para ciência e tecnologia, viu que a verba destinada ao reator em 2019 não é suficiente nem para pagar a tal pedra fundamental. “E fica por isso mesmo?”, provocou.

O presidente da ABC abordou, então, a questão dos desafios que nos coloca a ciência mundial. Leia na Parte 2.

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